VAR milimétrico na Copa 2026: a tecnologia acertou, mas o futebol perdeu

A Copa do Mundo de 2026 está provando que dá para o VAR estar tecnicamente certo e, ao mesmo tempo, deixar o futebol mais pobre. A onda de gols anulados por uma ponta de chuteira na fase de grupos reacendeu o debate mais incômodo do esporte: até onde a precisão milimétrica vale a pena? Quando a régua digital começa a apagar gols que pareciam legítimos a olho nu, a resposta deixa de ser óbvia.
O ponto não é defender erro de arbitragem. É reconhecer que a régua mudou de natureza. O impedimento foi criado para coibir o atacante que se esconde atrás da defesa, não para punir quem está com a unha do dedão à frente da linha. Quando a tecnologia transforma centímetros em veredito, ela cumpre a letra da lei e atropela o espírito dela. E é exatamente isso que se viu na primeira fase.
Os lances que incendiaram a semana
Os casos não foram pontuais — viraram padrão. No apagar das luzes contra Portugal, no sábado (27), a Colômbia teve um gol de Davinson Sánchez anulado pela ponta do pé, segundo o Terra, num lance que, conforme o Lance!, foi rotulado de "inacreditável" nas redes. A cabeçada teria dado a vitória aos colombianos; com o gol invalidado, o jogo terminou 0 a 0. No mesmo pacote entrou o tento anulado de Shoja Khalilzadeh, do Irã, contra o Egito — e a gravidade aqui é outra: validado, ele encaminharia a classificação iraniana, mas o impedimento milimétrico deixou o placar em 1 a 1, segundo o Lance!. Não é exagero dizer que milímetros mexeram com quem seguia vivo no torneio.
O Brasil também entrou nessa conta, ainda que por outra porta. No dia 24 de junho, na vitória por 3 a 0 sobre a Escócia que garantiu a liderança do Grupo C, Vinicius Júnior teve um gol anulado ainda no primeiro tempo. Desta vez não foi impedimento: o árbitro mexicano César Ramos foi chamado ao VAR e marcou falta do atacante sobre Jack Hendry na recuperação da bola — uma decisão que nem os escoceses pareciam reivindicar em campo, segundo a CNN Brasil. A CBF não engoliu: enviou ofício à Fifa contestando a intervenção, conforme a Agência Brasil e a ESPN. Não passou despercebido, aliás, que Ramos é o mesmo juiz que apitou o tropeço brasileiro de 2018 contra a Suíça, quando ignorou o VAR no gol de empate e numa reclamação de pênalti — episódio que também rendeu queixa da CBF na época, conforme a CNN Brasil.
O VAR não errou — e esse é o problema
Vale separar as coisas, porque o debate vive embolando duas discussões. O caso do Vini é interpretação subjetiva: dá para discordar do critério de falta, mas é uma decisão humana sobre contato físico. Já os gols de Sánchez e Khalilzadeh são outra história. Ali a máquina fez o trabalho dela com precisão cirúrgica. A linha do impedimento semiautomático — que combina câmeras de rastreamento corporal e um sensor na bola para cravar o instante do passe, como explica o Lance! — não falhou. Ela acertou. E ainda assim a sensação que ficou foi de injustiça.
Esse é o nó. Quando a tecnologia funciona perfeitamente e o resultado parece errado, o problema não está na ferramenta: está na regra que ela aplica. Um sistema desenhado para tirar dúvidas acabou criando uma certeza desconfortável — a de que um gol legítimo no olhar de qualquer torcedor pode ser apagado por uma fração de chuteira que ninguém vê a olho nu.
A "Lei Wenger" e a régua que faz sentido
Não por acaso, a própria Fifa já tem uma alternativa em estudo. Arsène Wenger, hoje chefe de desenvolvimento global da entidade, defende a chamada regra da "luz do dia": o atacante só estaria impedido se o corpo inteiro estivesse à frente do último defensor, exigindo um espaço visível entre os dois, conforme detalham o Diário do Estado e o Terra. Na prática, em vez de o empate decidir contra o atacante, o benefício da dúvida voltaria para quem ataca. Segundo o Lance!, com esse critério em vigor os gols de Sánchez e Khalilzadeh teriam sido validados. A mudança ainda não vale na Copa — está sendo testada em ligas menores, como a Canadian Premier League, antes de uma eventual adoção oficial, segundo a Bahia Notícias.
A lógica é boa por dois motivos. Primeiro, devolve a dúvida ao favorecido natural — o gol, que é a alma do jogo. Segundo, blinda o esporte da neura da linha: se é preciso uma régua digital para encontrar a vantagem, então não havia vantagem de verdade. O futebol passou décadas com bandeirinhas errando para os dois lados e sobreviveu. Trocar a falibilidade humana por uma exatidão que pune o ataque não é progresso, é só um tipo diferente de injustiça — mais frio, mais difícil de aceitar.
O que esperar daqui pra frente
Com o mata-mata em andamento, o risco sobe junto. Na fase de grupos, um gol anulado por milímetros custa uma vantagem; no mata-mata, pode custar a Copa inteira de uma seleção. É aí que a paciência do torcedor — e a credibilidade do espetáculo — vão ser realmente testadas.
A leitura do TV Copa é direta: a tecnologia chegou para ficar e isso é bom. O VAR resolve agarrão na área, impedimento escancarado, lance violento que o juiz não viu. Ninguém quer voltar ao escuro. Mas a Copa de 2026 escancarou que a régua do impedimento precisa de ar — literalmente, da tal "luz do dia". Enquanto a Fifa não puxa o gatilho da mudança que o próprio Wenger propõe, vamos seguir comemorando gols de olho na telinha, com aquela sensação ruim de que o juiz mais importante do jogo virou uma linha que ninguém consegue enxergar.
Perguntas frequentes
› Por que o gol de Vinicius Jr contra a Escócia foi anulado?
No dia 24 de junho de 2026, na vitória do Brasil por 3 a 0, o árbitro mexicano César Ramos foi chamado ao VAR e anulou o gol ainda no primeiro tempo por entender que Vini cometeu falta sobre o zagueiro Jack Hendry na recuperação da bola. A CBF discordou e enviou ofício de protesto à Fifa contestando a intervenção.
› O que é a regra do impedimento da 'luz do dia' proposta por Wenger?
É uma proposta de Arsène Wenger, chefe de desenvolvimento global da Fifa, em que o atacante só estaria impedido se o corpo inteiro estivesse à frente do último defensor, exigindo um espaço visível ('luz') entre os dois. O objetivo é acabar com os gols anulados por linhas milimétricas e devolver o benefício da dúvida ao ataque. A regra ainda está em fase de testes em ligas menores, não na Copa.
› O impedimento semiautomático funcionou na Copa 2026?
Tecnicamente sim. O sistema usa câmeras de rastreamento corporal e um sensor na bola para cravar o instante do passe, e foi ele que apontou os impedimentos por milímetros de Davinson Sánchez (Colômbia) e Khalilzadeh (Irã). O debate não é sobre falha da tecnologia, e sim sobre a regra que ela aplica.
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